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13/05/2014 - Andrés Carrasco, cientista argentino, morre aos 67 anos

Andrés Carrasco, cientista argentino, morre aos 67 anos


O Conselho Nacional de Pesquisas Científicas e Técnicas (CONICET) da Argentina anunciou neste sábado, 10 de maio, a morte do pesquisador. Carrasco, um biólogo molecular da Universidade de Buenos Aires o ex-presidente e CONICET, foi um renomado especialista no desenvolvimento embrionário, cujo trabalho se concentrou em como neurotransmissores afetam a expressão do gene nos animais vertebrados. Mas nenhum desses estudos gerou tanta controvérsia como o fez em 2010 sobre o glifosato, a pesquisa tornou-se um grande desafio para as relações públicas da gigante Monsanto Company, com sede em St. Louis, Missouri. O glifosato é o principal ingrediente em Roundup – pesticida da Monsanto, que foram combinadas com as plantas geneticamente modificadas para aumentar dramaticamente a expansão da agricultura industrial no mundo. A Agência de Proteção Ambiental (EPA) e outros reguladores diz que o glifosato é razoavelmente seguro, se aplicado corretamente, mas a expansão da agricultura industrial tem exposto cada vez mais pessoas a este e a outros produtos químicos.

Confira a entrevista que o cientista concedeu ao jornal Punto Final, em agosto de 2013:

O que aconteceu depois que você, em 2009, decidiu levar a público os resultados de seus experimentos sobre o glifosato e a relação com as malformações congênitas que se apresentam em fetos humanos expostos a esse herbicida?

“As mães afetadas, organizadas em Córdoba e localidades vizinhas às lavouras de soja, começaram a procurar-me para entender mais sobre o que estava acontecendo com as fumigações aéreas de glifosato. Dos círculos oficiais, recebi objeções por ter publicado esses resultados antes que eles saíssem em alguma revista científica. Eu sou médico, e pesquiso para as pessoas, por que isso afeta as pessoas e elas devem saber disso o quanto antes. Desde então, tenho estado ligado às lutas dessas mães, e quando em 2012 foi realizado um julgamento inédito, em Córdoba, em função das fumigações aéreas com glifosato, fui uma das testemunhas que explicou ao tribunal a relação entre as malformações, o câncer e as aspersões aéreas com glifosato. As Mães de Ituzaingó obtiveram uma sentença a seu favor, que reconheceu que as fumigações eram um delito”.

Logo depois de um encontro na Alemanha sobre o glifosato, houve funcionários que viajaram para lá para desmentir-me, sem êxito. Esse primeiro estudo – Herbicidas baseados em glifosato produzem efeitos teratogênicos em vertebrados interferindo no metabolismo do ácido retinóico (Glyphosate-based herbicides produce teratogenic effects on vertebrates by impairing retinoic acid signaling) foi publicado em 2010 na revista científica Chemical Research Toxicology. Em 2013, juntamente com uma equipe, publiquei na revista Advances in Molecular Toxicology uma Revisão dos Efeitos dos Praguicidas Usados em Cultivos Transgênicos na América Latina , (Pesticides Used in South American GMO-Based Agriculture: a Review of their effects on Humans and Animal Models).

Cientista polêmico

O professsor Andrés E. Carrasco não para de investigar e de informar. Durante a reunião da RALLT, seus estudantes lhe informaram pelo Twitter que tinham feito importantes descobertas sobre a toxicidade do glifosato de amônia, um herbicida utilizado em cultivos transgênicos, e ele resplandecia: “Estou feliz por trabalhar com eles, há uma nova geração de cientistas com outra visão. Creio que mereço isso”, disse à Punto Final. Ele tem dois filhos, um é desenhista gráfico, e a filha, atriz. Além do mais, o Dr. Carrasco revela verdades em seu programa semanal de rádio. “Silêncio Cúmplice”, na FM Tribu. Quando suas descobertas incomodaram o oficialismo, renunciou voluntariamente ao cargo de Subsecretário de Pesquisas Científicas e Tecnológicas do Ministério da Defesa, que ocupou no primeiro governo de Cristina Fernández de Kirchner.

Que evidências você pode citar sobre os efeitos nocivos dos agrotóxicos?

“A partir de então, diversos estudos foram gerados no mundo e na Argentina. Um dos mais recentes, de maio de 2012, “Relação entre o uso de agroquímicos e a situação de saúde” foi liderado pela Dra. Mirta Liliana Ramírez, pesquisadora do Conicet. Ele documenta o aumento da incidência de câncer e malformações nas zonas sojeiras e arrozeiras da província do Chaco, com uso intensivo dos agrotóxicos endossulfan, glifosato, paraquat e cipermetrina, entre outros.O relatório foi entregue ao Ministério da Saúde, mas não teve resposta. Foram realizados 2500 questionários e revisão dos dados oficiais, concluindo-se que, por exemplo, em Avia Terai, uma localidade rodeada de cultivos de soja e girassol fumigados entre dez e doze vezes ao ano, 31,3% da população entrevistada declara ter tido algum familiar com câncer. Os índices muito altos de câncer, e também de incapacidade, se repetiram em outras três cidades cercadas por campos transgênicos: Campo Largo, Napenay e La Leonesa. Além disso, uma investigação da Faculdade de Medicina de Rosário, encabeçada pelo Dr. Damián Verseñassi comprovou na localidade agroindustrial de Bovril, em Entre Rios, um notável incremento dos casos de câncer. Na última década, passou a ser a maior causa de mortes. Lá, a incidência de câncer é de 236,78 casos para cada 100 mil habitantes, enquanto que a taxa média na Argentina no ano de 2008 era de 206 para cada 100 mil habitantes”.

E as malformações congênitas?

“Há 10 milhões de pessoas que vivem nos territórios ocupados por cultivos transgênicos, que são 23,5 milhões de hectares, dos quais 40% estão nas mão de tão somente 3% dos produtores. Está provado que, em 10 anos, as malformações nesse território aumentaram em 400%. A Dra. Trombotto, do Hospital de Obstetrícia e Neonatalogia da Universidade Nacional de Córdoba estudou em 111 mil recém-nascidos a preponderância de malformações congênitas maiores (MCM) do tipo craneofacial, gastroquises (defeitos na parede abdominal anterior, através os conteúdos abdominais sobressaem livremente) e nas extremidades, concluindo que a taxa que era de 16,2 para cada 10 mil nascidos em 1991, subiu para 37,1 para cada 10 mil nascidos.”

Por que você diz que não se deve falar separadamente de transgênicos e agrotóxicos?

“Por que, quando na discussão são separados os agrotóxicos dos transgênicos, ocorre uma perda de consistência nas raízes do problema. É como se alguns vissem os agrotóxicos somente por seus efeitos nos insetos, outros sobre as ervas daninhas e outros sobre os alimentos, separadamente. Quando um problema é complexo assim, não é um somatório. Todos tem um tronco comum geopolítico. Seguindo o pensamento de Aníbal Quijano, podemos dizer que na América do Sul não houve descolonização cultural e predomina uma obediência epistêmica às maneiras européias. Com o genocídio colonial destruíram-se também as formas de pensar, os códigos e visões da natureza que foram substituídos pela visão européia. Para encarar os problemas de hoje, não podemos continuar nessa mesma lógica. Observo um despertar dos povos originários. Em alguns lugares, há visões que permitem observar de outra maneira o que ocorre quando os impérios querem recuperar o controle para utilizar os recursos naturais, que para nós são bens comuns. Para descolonizar o poder, temos que pensar a partir da América.

O CASO DO CHILE

Que opinião você tem das avaliações de risco que as empresas fazem?

As empresas também manejam a nossa discussão. As corporações de mineração, farmacêuticas e biotecnológicas são redes de poder que expressam as tendências de dominação de algumas sociedades sobre outras. São os novos “marines”, são formas de ocupação que separam as pessoas da terra. Geram espaços para que discutamos sobre isso, sem dar-nos conta que existe uma ocupação literal de territórios para apoderarem-se deles. No caso do Chile, é a mineração e a produção de sementes para o Hemisfério Norte. Se o império me faz produzir sementes transgênicas, sou um coringa no jogo global, e já não tenho identidade. O país cede e lhe permite um espaço de poder. O Paraguai é vítima do avanço neocolonial, e Honduras também. A Monsanto não tem o direito de fazer o que quiser com a população. Isso é um ato de neocolonialismo.

E como sairemos dessa lógica?

“Creio que as alternativas estão com os povos originários, por sua forma de relacionar-se com a natureza. Temos que definir entre viver para cuidar da natureza ou para apropriar-nos dela, através das patentes por exemplo. Os conquistadores partiram fazendo a ‘taxionomia’, a classificação do mundo vivo. “Te dou a vida”, e te nomeio. Hoje, já que destruíram a terra, pretendem criar outra Natureza… e tirar as pessoas dos territórios. Essa é uma construção mental européia, e também dos Estados Unidos, que herdaram o que há de pior nesse pensamento. Por isso entendo a luta contra os extrativismos, como por exemplo a dos docentes de Famatima, em La Rioja: eles não querem que a montanha seja destruída, esvaziada por um mega-projeto de mineração canadense. Os povos originários sabiam fazer as coisas, sabiam que não podiam destruir. Hoje temos retrocedido.

Veículo: Internet

Fonte: http://www.abrasco.org.br/site/2014/05/andres-carrasco-cientista-argentino-morre-aos-67-anos/